quinta-feira, 22 de abril de 2010

Mais um capturado

Ainda não foi Ratko Mladic, mas outro suposto envolvido no massacre de Srebrenica foi capturado. Trata-se do esloveno Franc Kos, detido em um ônibus na cidade croata de Osijek, quando tentava deixar o país rumo à Sérvia.

Kos é considerado membro de uma unidade especial das forças servo-bósnias que executaram mais de 8.000 homens e garotos bósnios após a ocupação de Srebrenica, em julho de 1995.

A Procuradoria da Bósnia já anunciou que pedirá a extradição de Kos, que também tem passaporte bósnio.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A nova investida da Turquia na Europa

Boa parte da história turca está relacionada com os Bálcãs. Basta lembrar que esta região da Europa esteve sob domínio otomano por mais de 400 anos. Hoje ainda permanece com um pedaço de território em solo europeu, do tamanho do estado de Sergipe, onde está parte da antiga cidade de Constantinopla – rebatizada de Istambul após a queda do Império Bizantino, em 1453. Essa peculiaridade faz da cidade de Istambul a única no mundo a estar em dois continentes ao mesmo tempo.

Por isso, chama a atenção a entrevista do chanceler turco, Ahmet Davutoglu, ao jornal “Folha de S. Paulo”. O foco principal é o papel de mediador ao qual o país se propõe assumir em relação ao vizinho Irã. Mas também revela que o país pretende usar sua localização estratégica no globo para aumentar sua influência, seja no Oriente Médio, seja nos Bálcãs – duas regiões nas quais o antigo Império Otomano deteve a supremacia por séculos.

Eis alguns trechos da entrevista que o chanceler turco, durante visita a Brasília, concedeu ao jornal:

“O Brasil é líder de processos regionais na América Latina, e a Turquia tem esse papel no Oriente Médio, nos Bálcãs e na Ásia Central.”

"Recentemente, ajudamos a promover a abertura do diálogo entre a Bósnia e a Sérvia, que já levou à normalização da relação bilateral, com a nomeação de um embaixador bósnio em Belgrado. Posso dar muitos outros exemplos.”

“Nosso objetivo estratégico é nos tornarmos membros da UE, e esse processo vai continuar. Ao mesmo tempo, a Turquia quer estar ativamente envolvida em todos os processos nas regiões vizinhas, do Oriente Médio aos Bálcãs, numa política que chamamos de problema zero e integração máxima com a vizinhança. Na verdade, é uma política compatível com os valores europeus.”


Uma das perguntas feitas pela Folha merece destaque. Ela questiona o chanceler turco acerca das pretensões do país, como se houvesse a intenção de reviver o Império Otomano:

FOLHA - Há entre alguns líderes árabes a desconfiança de que a Turquia estaria tentando reviver o Império Otomano. Como o senhor responde a essas suspeitas?
DAVUTOGLU - A Turquia respeita todos os países que foram parte do território otomano no passado. Somos Estados iguais, não queremos dominar nenhum deles nem a região. Mas, por causa da história comum, temos certas responsabilidades. Por exemplo, quando houve a guerra na Bósnia, em 1993, e milhares de bósnios foram mortos, milhares de mulheres bósnias foram estupradas, os bósnios pediram ajuda a nós, viram na Turquia um lugar de refúgio.
O mesmo aconteceu em Kosovo, na Tchetchênia. Quando os curdos foram perseguidos por Saddam [Hussein] no Iraque, mais de 195 mil vieram para a Turquia. Por quê? Porque acham que podemos ajudá-los a resolver seus problemas. Essas comunidades consideram que temos responsabilidades especiais, e estamos tentando dar conta delas. Tentamos criar ordem à nossa volta, não dominar nenhum país ou região.


A entrevista completa pode ser lida no link abaixo:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u723068.shtml

domingo, 18 de abril de 2010

Nova fase no júri de Kardzic

O julgamento do ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic no Tribunal Penal Internacional de Haia (Holanda) entrou em uma nova fase na última terça-feira (13).

O ex-presidente da autoproclamada República Sérvia da Bósnia, que assumiu sua própria defesa, é confrontado com testemunhas de acusação. A primeira delas, o muçulmano bósnio Ahmet Zulic, disse aos juízes que os sérvios queimaram seu sogro vivo durante a brutal tomada de sua vila no começo da guerra na Bósnia, em 1992. O depoimento durou cerca de 90 minutos e Karadzic chamou de “tendencioso” o testemunho.

Caso seja condenado, Karadzic pode pegar prisão perpétua.

Palpite: o veredicto de Karadzic deve sair antes de 11 de julho, dia que marca o aniversário do massacre de Srebrenica. Mais um elemento que deve ajudar a comunidade internacional a – pelo menos tentar, mesm0 que tardiamente – acertar as contas com o povo bósnio.

sábado, 3 de abril de 2010

Antes tarde do que nunca

Em resolução histórica, o Parlamento sérvio aprovou, no último dia 31/03, a condenação oficial do país ao massacre de Srebrenica (Bósnia), ocorrido em 11 de julho de 1995, quando tropas sérvio-bósnias mataram 8 mil bósnios muçulmanos.

O texto, aprovado por 127 dos 173 deputados, se solidariza com as famílias das vítimas e pede desculpas "por não ter sido feito todo o possível para evitar a tragédia".

Se for pela filosofia “Antes tarde do que nunca”, é um grande avanço. Mas não deixa de ser tardio.

É também mais um recado do governo sérvio à UE, mostrando sua disposição em integrar-se ao universo europeu e tentar ao máximo se redimir do peso histórico vindo das guerras nos Bálcãs da década de 1990. E também aos criminosos de guerra ainda soltos (diga-se Ratko Mladic).

Mais detalhes, acesse o texto da Deutsche Welle sobre o assunto:

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5415750,00.html?maca=bra-newsletter_br_Destaques-2362-html-nl

Apenas o Kosovo permanece como pauta inegociável nas relações internacionais da Sérvia. Por quanto tempo, isso não se sabe.

quarta-feira, 31 de março de 2010

"Fator gay" em Srebrenica?

Quinze anos após o massacre de Srebrenica (Bósnia), continuam as desculpas e o jogo de empurra quanto às responsabilidades da comunidade internacional sobre o incidente, o pior do tipo ocorrido em solo europeu após a Segunda Guerra Mundial.

A última - e mais estapafúrdia delas - foi a acusação do ex-general da Otan, o americano John Sheehan, de que a presença de soldados gays nas forças de paz holandesas teria influído negativamente sobre o conjunto, tornando a tropa ineficaz na defesa de Srebrenica. O relato completo pode ser visto no link abaixo em despacho da agência Reuters:

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2010/03/19/holanda-rebate-acusacao-de-fracasso-em-srebrenica-por-fator-gay.jhtm

Autoridades do governo holandês reagiram, furiosas, dizendo que os comentários de Sheehan eram eram "ridículos" e "tirados do mundo da ficção."

Explico: Forças servo-bósnias ultrapassaram soldados holandeses armados em Srebrenica, enclave designado pelas Nações Unidas, em julho de 1995, massacrando subsequentemente mais de 8 mil homens e meninos muçulmanos. Na época, as forças holandesas eram as responsáveis pela defesa do enclave e foram duramente criticadas pela atuação em Srebrenica.

Os eventos de 1995 continuam sendo um assunto delicado na Holanda, onde uma investigação de seis anos sobre o massacre chegou a derrubar o governo em 2002.

terça-feira, 2 de março de 2010

Karadzic no Tribunal – Parte 2

Em nova etapa de sua defesa no Tribunal de Haia, o ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic culpa o extremismo islâmico pelo começo da Guerra da Bósnia. Karadzic é acusado de cometer genocídio e crimes contra a humanidade durante o conflito, que foi de 1992 a 1995.

A declaração de Karadzic soa à tal teoria de choque de civilizações – cultivada por algumas mentes no Ocidente, em especial na do ex-presidente dos EUA, George W Bush. É como se o ex-líder sérvio tentasse usar o receio ainda existente no Ocidente sobre os muçulmanos em sua defesa, como forma de tentar justificar seus atos durante a guerra.

Só falta dizer que são os muçulmanos que hoje comem crianças – antes, eram os comunistas.

Parece que Kardzic se esqueceu que esse argumento – que ganhou força após o 11 de setembro de 2001 – já anda um tanto quanto ultrapassado. E aposto que ele não escapará da condenação máxima, a prisão perpétua.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Começa o julgamento de Karadzic

Enfim, o ex-líder político dos sérvios na Bósnia, Radovan Karadzic, dá as caras no Tribunal de Haia (Holanda), onde responde por genocídio no Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia. As três primeiras audiências foram boicotadas pelo ex-líder sérvio, sob alegação de não ter tido tempo de preparar sua defesa.

Karadzic, que está preso desde julho de 2008, é acusado de promover, durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), uma limpeza étnica que deixou 100 mil mortos e outros 2, 2 milhões de desabrigados. Ele pode ser condenado à prisão perpétua, mesma pena a qual estava sujeito o ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic, que se suicidou em 2006 enquanto ainda estava sendo julgado em Haia.

Em sua defesa, o ex-líder sérvio evoca o nacionalismo e diz defender uma causa que chama de "justa e sagrada".

"Me encontro diante de vocês não para defender o simples mortal que sou, e sim para defender a grandeza de uma pequena nação na Bósnia-Herzegovina, que teve que sofrer durante 500 anos, a república autoproclamada dos sérvios da Bósnia".

Os 500 anos aos quais Karadzic se referem correspondem ao tempo em que a Sérvia passou sob domínio do Império Otomano, que durou de 1389 a 1875, quando o Tratado de Santo Steáfano reconheceu sua independência e a de outras nações balcânicas.

Karadzic foi presidente da república sérvia da Bósnia (hoje, é a tal república é a Sprska, uma das entidades que atualmente formam a federação bósnia). Desde a independência do Kosovo, em fevereiro de 2008, políticos dessa república tentam promover um referendo sobre a continuidade da região como parte da Bósnia ou como um novo país na região – o mais provável, no entanto, seria que um futuro governo pós-separação da Bósnia levaria a região a uma incorporação à Sérvia.

As atenções sobre o Tribunal de Haia devem aumentar este ano, em que completam-se 15 anos do massacre de Srebrenica e do fim da Guerra da Bósnia. Os julgamentos e possíveis condenações podem ser vistos pela comunidade internacional como um bom acerto de contas – mesmo que tardio – com os responsáveis pelo primeiro genocídio em solo europeu após a Segunda Guerra Mundial.

Agora, se tais possíveis condenações poderão trazer um pouco de paz e estabilidade aos Bálcãs, aí é outra história...