domingo, 20 de junho de 2010

Um futebolista para cônsul da Sérvia no Brasil

Ele joga há anos no futebol brasileiro e é ídolo no Flamengo, time de maior torcida no país. Mas seu nome e sotaque ao falar não negam: Dejan Petkovic é de origem sérvia, nascido na cidade de Majdanpek. Está no Brasil desde 1997, quando começou a jogar pelo Vitória da Bahia, após passagem frustrada pelo futebol espanhol.



De lá, Pet, como é conhecido no Brasil, passou por vários clubes: Vasco, Atlético-MG, Santos e Fluminense. Mas é com o Flamengo a sua relação mais íntima. O meia foi peça importante na equipe rubro-negra na conquista do Campeonato Brasileiro de 2009, mesmo já com idade avançada para o futebol moderno – está com 38 anos.

É com base nessa popularidade que Pet tem no Brasil que o ministro das relações exteriores da Sérvia, Vuk Jeremic, manifestou a intenção de nomear o meia como cônsul honorário da Sérvia no país, em busca de estreitar as relações entre Brasil e Sérvia

Jeremic deu a declaração logo após uma reunião com o chanceler brasileiro, Celso Amorim, em Belgrado. No encontro, ficou acertado o fim da exigência de visto para sérvios e brasileiros entrarem nos dois países.

Por trás dessa visita, no entanto, há outros fatores ocultos. O Brasil é um dos países que ainda não reconheceu a independência do Kosovo – a posição oficial brasileira é a de que o fará caso a ONU também reconheça o novo país, o que ainda não ocorreu. Para a Sérvia, é interessante ter o apoio de um país que, independente de certos tropeços recentes na política externa, é cada vez mais importante no cenário político internacional. Para o Brasil, é uma porta aberta na região dos Bálcãs para negócios e outros acordos.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Tito, por dois jovens

Líder estadista e herói para alguns, déspota e assassino para outros. As opiniões sobre Tito na antiga Iugoslávia oscilam entre esses dois extremos. É verdade que Tito foi o artífice da libertação da Iugoslávia do jugo nazista na Segunda Guerra Mundial, mas também exerceu com mão de ferro seu governo sobre o país até morrer, em 1980.

Essas impressões sobre Tito ficam ainda mais fortes ao conversar com pessoas que vivem na região da antiga Iugoslávia. A admiração pelo antigo líder é maior entre as pessoas mais velhas. As mais jovens tendem a apresentar uma visão mais crítica do antigo governante, como a estudante de Medicina sérvia Ivana Vukovic, que vive em Belgrado. “Na verdade, a opinião geral é de que ele era um bom político, mas ele ferrou com a Sérvia e até hoje sofremos as consequências de sua época”.

Visão parecida com a de Ivana tem Ivo Marinovic, de Mostar (Bósnia Herzegovina). “Durante sua ditadura, Tito fez coisas boas e ruins. Ele construiu cidades, pontes, não faltava nada à população – se bem que não havia muitas opções, além de produtos iugoslavos, russos e de outros países do bloco soviético. Mas as pessoas eram como pássaros em uma gaiola, sem liberdade de expressão, para trabalhar ou viajar”, explica.

Marinovic também dá uma mostra de como Tito manteve, sob relativa harmonia, os povos que compunham a antiga Iugoslávia. “Na época, era crime você se dizer croata, por exemplo”.

As opiniões acima revelam como a questão sobre Tito e a história dos Bálcãs são muito mais complexas do que se imagina. E que os 30 anos da morte de Tito e as quase duas décadas de esfacelamento da Iugoslávia ainda permanecem como feridas mal cicatrizadas na região dos Bálcãs.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Inimigos ontem, aliados hoje

O inimigo de ontem pode vir a ser o aliado de amanhã. Essa frase se aplica bem à atual relação entre Turquia e Sérvia.

Só para relembrar: foi em uma batalha contra os turcos (a famosa Batalha do Kosovo, de 1389) que o então Império Sérvio teve sua expansão brecada pelos Bálcãs. Além do mais, perdeu sua independência e passou para o domínio dos vencedores, os otomanos, de onde saiu somente em 1875. Nos gritos nacionalistas sérvios, o ódio aos turcos – e ao que possa vir a ter alguma ligação com eles – é um elemento comum.

Rivalidades à parte, Turquia e Sérvia hoje têm muito mais convergências do que divergências. Ambos tentam o ingresso na UE, mas são vistos com desconfiança pelos demais países-membros. Ambos convivem com o separatismo à porta – enquanto s turcos têm seu maior problema em relação aos curdos a Sérvia tem no Kosovo uma dor de cabeça ainda maior, já que mesmo sem plena aceitação internacional, a separação da antiga província de maioria albanesa é praticamente irreversível.

Com tantos pontos em comum, não é de se admirar que haja uma aproximação entre os dois governos em prol de um peso maior para ambos no cenário regional e europeu. As pretensões turcas ficaram bem evidentes no post anterior. Já os sérvios querem apagar a má impressão com a qual ficou após as guerras que dissolveram a antiga Iugoslávia. Até mesmo pediram desculpas aos bósnios pelo massacre de Srebrenica, que completará 15 anos em julho, e estão empenhados na caça aos responsáveis pelo episódio. Um deles, Karadzic, já está preso e sendo julgado no Tribunal de Haia; o outro, Mladic, ainda está foragido.

A situação é mais favorável à Sérvia, de fé cristã ortodoxa. A Europa não consegue engolir com facilidade a possibilidade de um país islâmico como a Turquia ingressar na UE. A batalha promete ser longa para ambos.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pegadas da Guerra do Kosovo

A guerra mais recente da história dos Bálcãs também deixa suas pegadas. Uma vala comum com cerca de 250 corpos foi encontrada perto da cidade de Raska, perto da fronteira com Kosovo, que declarou independência em 2008.

Os corpos seriam de albaneses mortos durante a guerra do Kosovo (1998-1999), na qual a então província sérvia, de maioria albanesa, lutava pela independência. Com o fim da guerra, a região ficou sob tutela da ONU até 2008, quando a região declarou independência unilateral da Sérvia. Independência esta que ainda divide a comunidade internacional, mas que acho irreversível

A Guerra do Kosovo contribuiu para manchar ainda mais a imagem da Sérvia (na época ainda adotava o nome Iugoslávia, em conjunto com Montenegro), ainda associada ao presidente Slobodan Milosevic, que morreu em 2006 enquanto respondia pelos crimes de guerra dos quais era acusado. A Otan, que interveio no conflito, também saiu manchada: acertava pontes de Belgrado, fazia barulho, mas pouco fez para coibir a limpeza étnica promovida pelo governo Milosevic.

Certeza mesmo, só a respeito dos reais perdedores: centenas de albaneses alojados em campos de refugiados em países vizinhos (Macedônia e Albânia, em especial) devido ao conflito. E pelo jeito agora já se sabe qual o destino de 250 daqueles que, em vez dos campos de refugiados, conheceram as valas comuns

terça-feira, 4 de maio de 2010

Morte de Tito completa hoje 30 anos

O 4 de maio deste ano marcou o aniversário de 30 anos da morte do ex-líder iugoslavo Josip Broz Tito.

Nascido em Kumorvec, um vilarejo da atual Croácia em 1892, Tito foi o maior responsável pela libertação da Iugoslávia do domínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial, comandando a Frente de Libertação Nacional - seus integrantes eram conhecidos como partizans. Chegou ao poder no país em 1945, como primeiro-ministro, e assumiu a presidência em 1953, saindo dela somente após morrer em um hospital de Ljubljana, na atual Eslovênia.



Durante esse tempo, Tito conduziu a Iugoslávia para o bloco comunista da Europa, mas não era alinhado com o regime soviético. Isso permitiu a Tito ter maior liberdade de atuação no país e também fora dele. Tito tornou-se um dos principais expoentes do não-alinhamento durante a Guerra Fria. Em 1961, ele promoveu a Conferência Internacional dos Países Não-Alinhados, onde ficou determinado que as nações participantes tomariam uma postura de neutralidade em relação à Guerra Fria.

Outra prova de respeito da comunidade internacional em relação a Tito foi seu funeral, que reuniu em Belgrado delegações de 128 países.

Tito também conduziu com mão-de-ferro o país, não deixando que nada escapasse ao seu controle – para o bem e para o mal. Um de seus grandes méritos foi o de esfriar as disputas envolvendo os povos que compunham a Iugoslávia. Conseguia fazer com que sua autoridade fosse respeitada por todos os povos. E sua morte, para muitos, significou o começo do fim da antiga Iugoslávia, já que a partir dela os choques entre sérvios, croatas e Cia. começaram a se tornar mais intensos até explodirem de vez no começo da década de 1990

O túmulo de Tito, em Belgrado, é um dos principais pontos turísticos da atual capital sérvia. Estima-se que 17 milhões de pessoas já estiveram no local desde 1980

PS: A Avenida Marechal Tito, uma das vias mais importante do extremo leste da cidade de São Paulo, foi batizada assim em homenagem ao ex-líder iugoslavo

domingo, 2 de maio de 2010

Rastko Pocesta, 12 anos, ativista

O sérvio Rastko Pocesta, com apenas 12 anos, é ativista de Direitos Humanos em seu país. Ele ficou famoso com artigos publicados em blogs e no Facebook, onde faz campanha para que a Sérvia participe da União Europeia (UE) e da Otan.

Para ele, o ingresso do país no bloco europeu traria estabilidade econômica e prosperidade ao país; quanto a Otan, Pocesta diz que a adesão à aliança militar ajudaria na segurança dos sérvios.

Ele ainda tem uma outra posição, para lá de polêmica na Sérvia: defende a independência do Kosovo, o que é visto paraticamente como uma heresia pela maior parte do país.

Por essas posições políticas, o garoto é ameaçado de morte por grupos ultranacionalistas – que ainda são fortes no país – e que o acusam de trair os valores sérvios. A organização direitista Obraz, que considera todo sérvio pró-Ocidente um traidor, faz o seguinte comentário sobre Pocesta na internet:
"Nós deveríamos quebrar os ossos dessa criança, e então as suas ideias."

Li um dos artigos do garoto publicado no site de relacionamentos Facebook – com a ajuda de tradutores online, claro, Nele, Pocesta critica a Rússia, aliada histórica da Sérvia, afirmando que Moscou apenas se utiliza de Belgrado para manter hegemonia sobre a região dos Bálcãs e da falta de democracia do país.

Atualmente, vive sob proteção oficial do governo – que tem inclinação pró-Ocidente, como Pocesta.

A situação de Rastko Pocesta mostra bem a divisão política no país. A Sérvia tenta deixar para trás a má impressão com a qual ficou após as guerras dos anos 90 na região. Ao mesmo tempo, movimentos ultranacionalistas ainda encontram simpatia junto à população. O atual governo do país é pró-Ocidente, é favorável à aproximação do país com o Ocidente, visando a entrada da sérvia na Otan e na EU – assim como o garoto Pocesta. Mas outra parcela da população não vê com bons olhos essa política – e a oposição está bem atenta a esses anseios.

Uma dúvida certamente deve vir à sua mente, assim como vem à minha: existe alguém por trás de Pocesta? Fica até difícil imaginar como um garoto de 12 anos consegue escrever e opinar sobre assuntos tão complexos e espinhosos. De qualquer forma, vale a pena ficar de olho no que ele escreve e prega, e assim entender um pouco mais da complexa realidade desse país do leste da Europa.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ainda sem Peixe Grande, serve peixe pequeno

Enquanto o “Peixe-Grande” Ratko Mladic, comandante das tropas sérvio-bósnias do massacre de Srebrenica (Bósnia) não aparece, peixes menores vão caindo na rede mundo afora.

O mais recente capturado é o ex-soldado sérvio-bósnio Marko Boskic, 46. Ele foi preso nos EUA por mentir sobre seu engajamento militar durante a guerra na Bósnia entre 1992 e 1995 e agora foi extraditado para a Bósnia, onde deve se juntar a outros que estão sendo julgados pelos crimes cometidos durante a Guerra da Bósnia.